sexta-feira, 27 de abril de 2007

Vivências


Espelho
Desejo alguém...
Que me escute se eu falar,
Que corresponda ao meu olhar,
Mas, acima de tudo, que me permita sonhar!

Desejo alguém...
Que, nos olhos, reflita minha imagem,
Que, com olhar crítico e coragem
Diga o que quero calar!

Desejo alguém...
Não uma etérea projeção,
Nem uma estática ilusão,
Ou, ainda, um contorno vão!

Desejo alguém...
Não uma imagem distorcida,
Não minha própria alma perdida
Ou cacos que caem no chão!

Desejo alguém,
Que mesmo que possua do tempo os desgastes
Permita-me ver, por instantes,
A dor e o prazer que o tempo
Deixou marcados em meu semblante!

E recomeçando, como o sol a cada despertar,
- metáfora com que guio a vida –
Busco sempre meu ideal.
Afinal, a cada manhã,
É preciso se olhar, se entender, se avaliar,
Fazer do outro um espelho,
Na tentativa incansável de jamais
Deixar de desejar!...


Direção oposta


Em meio ao caos
Meu rosto se confunde
Com os milhares que passam
Sem rostos,
Sem gostos,
Sem expressão.

Ouço um grito.
Ninguém mais escuta?
São pessoas ensurdecidas,
Cansados da vida.

Paro, e nesse momento de angústia,
Mudo a direção de meus passos.
Escolho começar, assim, um caminho solitário!



Teresa

À minha mãe

Ela me disse um dia
Que p’rá ser feliz é necessário
Levar a vida com simplicidade
Fazendo sempre o melhor.

Não aceitei, no momento,
O que me dizia minha mãe:
Uma mulher que aprendeu
Com lágrimas de sofrimento.

Passaram-se os anos e pude ler
Nas rugas marcadas em seu rosto
O quanto é duro viver:
Certezas de nada, sentimentos contraditórios, memórias embaçadas,
Despedidas indesejadas, cansaço, desilusão...
Se desejar pudesse ser o bastante!...

Mas, como pode ainda ter a voz tão doce e o sorriso alegre?
Depois de tudo...
Só agora entendo o que me quis dizer!






Relatos


Que tenho feito pela vida a fora
Que mereça destaque ou reprovação?
Vê, não é apenas meu corpo que chora,
É minha alma sempre cheia de emoção
Que faz brotar lágrimas-palavras
Falando da grandeza d’uma paixão
Que, sem pedir licença, arromba portas
E se instala no fundo do coração.

Depois disso, eu passo o tempo inteiro
Buscando o amor, sem tanta pretensão.
Sei que o amor puro e verdadeiro
Não impõe uma vida de escravidão,
Nem nos tira da boca o doce sabor
De ser livre como folha solta ao vento,
De ser como pássaro que beija a flor,
Agradecendo por esse especial momento.

O que tenho feito, aqui, apresento
Com os olhos embaçados de emoção:
Eu creio no poder do sentimento
Projetando o que chamam de ilusão.
Sou a que busca em sua existência
Cantar a força do verdadeiro amor,
Que traz sublimação em sua essência,
Sendo suave, manso e acolhedor.







Filhos

Eu hoje quero falar
Do meu amor por vocês.
Maior e mais puro não há,
Converteu um’alma em três.

Eu, sem vocês sou nada,
Sou roseira sem botão,
Sou noite escura sem lua,
Sou folha morta no chão.

De tudo que Deus me deu,
Até o presente dia,
Riqueza maior não há,
que vocês, minha alegria.

Filhos meus, queridos,
Quero, com toda a emoção,
Dizer desse grande amor
Que deu à vida outra feição.




Soneto do Primogênito

De todas as delícias da vida
A que melhor pude saborear
Foi quando, já meio adormecida,
Ouvi meu filho Alberto chorar.
Em fio, o pranto lento deslizou
Por minha face agora materna.
A emoção conta de mim tomou:
Emoção indizível, eterna.
És meu filho, meu primogênito,
Floristes a vida e seus pesares,
Ensinastes-me um novo sentimento.
Com a primavera, ao chegares,
Tão branco como a água nascente,
Luz, em meus olhos, se fez presente.



Carolina menina

Linda garotinha que me inspira
Quando, dormindo, em sua cama está
Apaixonei-me assim que vira
Seu rosto de menina despertar.

D’um calmo sonho, que só anjos tem,
Nada a pedir e nada a desejar.
Veio ao mundo me fazer o bem,
Nascendo par’eu sorrir e amar.

Ao nascer, olhos inda cerrados,
Chorou baixo, ao ouvir minha voz.
Quão veloz tem o tempo passado!

Amo tanto a minha menininha,
Como as flores amam o dia,
Como o poeta, sua poesia!


Mudanças

(Tempora mutantur...et nos in illis)


Lembro-me bem de um tempo
Com ideais a perseguir.
No peito, havia esperança,
Certeza de um melhor porvir.

Tudo muda com os anos!
Mudei e o sonho acabou.
Inclino-me sobre o que fui,
Já não reconheço quem sou.

Ao sol incerto, eu me sinto,
Olhos aflitos a turvarem,
O nada ante o infinito.

Meu coração, de nostalgia,
Se perde...não sabe chorar!

Acha-se, enfim, na poesia!



Nenhum comentário: